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A economia da longevidade e o Brasil que ainda discute quem paga a conta

Enquanto o mundo ergue infraestrutura para viver mais e melhor, seguimos presos a um modelo de saúde desenhado para um país jovem.


Em 45 anos, quase 4 em cada 10 brasileiros terão mais de 60 anos. Seremos cerca de 75 milhões de pessoas idosas, segundo projeções do IBGE e da ONU, o que já coloca o Brasil entre os países com maior população idosa do mundo. Não é ficção científica: é o Brasil que os adolescentes do ENEM – obrigados, este ano, a escrever sobre “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira” – vão habitar quando chegarem à velhice.

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Enquanto isso, um relatório recente do UBS projeta que o mercado global da longevidade deve saltar de US$ 5,3 trilhões para US$ 7,8 trilhões até 2030. É assim que grandes bancos de investimento, consultorias e fundos especializados passam a tratar da longevidade: não como nicho de saúde, mas como macrotendência econômica.


Aqui, o tema chega ao Supremo Tribunal Federal num formato bem menos glamoroso:

Planos de saúde antigos podem ou não reajustar a mensalidade de quem passou dos 60 anos?


De um lado, uma corrida trilionária por terapias, dados e cidades prontas para quem vai viver 90, 100 anos – visível em relatórios como o Longevity Tech Market Map, da CB Insights, e nos mapeamentos de startups de longevidade feitos na Europa.Do outro, o medo de que envelhecer “não caiba” no orçamento do plano de saúde.


Essa distância de horizonte diz muito sobre onde estamos – e para onde podemos (ou não) ir.

Longevidade não é sobre viver mais: é sobre como vamos viver esse “mais”

Há um consenso emergente entre cientistas sérios e investidores atentos, que aparece em matérias como a da Inc. (“Startups Are Trying to Help People Live Longer. Here’s What the Research Says”) e em relatórios como os da Statista e da CB Insights: a questão central não é lifespan (quantos anos vivemos), e sim healthspan – quantos desses anos são vividos com autonomia, propósito e saúde razoável.


Se olharmos o mapa de startups e investimentos em longevidade, dá para enxergar uma espécie de escada de ambição:

  1. Evitar morte precoce

    • Empresas focadas em diagnóstico precoce e prevenção pesada: exames de sangue que buscam detectar câncer anos antes, algoritmos que monitoram múltiplos biomarcadores, medicamentos como os GLP-1 para obesidade e risco metabólico. É o universo de soluções como Freenome, Epigenomics e tantas outras listadas em relatórios europeus de longevidade.

  2. Desacelerar o envelhecimento

    • Plataformas que monitoram sono, nutrição, hormônios, saúde mental e marcadores sanguíneos ao longo do tempo, oferecendo planos personalizados de estilo de vida. É o território de empresas como InsideTracker, Cerascreen e de uma nova geração de longevity clinics que aparecem no estudo da CB Insights.

  3. Reprogramar o relógio biológico

    • A fronteira mais audaciosa: biotechs que tentam rejuvenescer células, modulando mecanismos do envelhecimento em níveis epigenético, celular e metabólico. Laboratórios como Altos Labs, Retro Biosciences, Biosplice e outros – citados em market maps recentes – se apoiam em inteligência artificial e biologia sintética para tentar o que por décadas foi ficção científica.


A maior parte do dinheiro ainda entra nos dois primeiros degraus. E, curiosamente, a intervenção com melhor evidência até agora continua sendo quase prosaica: mover o corpo. Pesquisadores como Jay Olshansky insistem que, hoje, o equivalente mais próximo de uma “fonte da juventude” continua sendo um bom par de tênis e condições mínimas para praticar atividade física.

Esse contraste é importante: num extremo, laboratórios tentando reprogramar células humanas; no outro, a dificuldade de oferecer atividade física segura, atenção primária qualificada e prevenção básica à maioria da população.

Longevidade premium x longevidade possível

Se quisermos entender a assimetria do momento, basta comparar dois personagens.

De um lado, um executivo em um resort de longevidade nos Estados Unidos. Ele paga algo em torno de US$ 20 mil por um pacote intensivo: bateria de exames avançados, avaliação profunda de saúde mental, nutrição personalizada, práticas integrativas, treinadores e médicos alinhados em torno de um plano de “otimização da meia-idade”. Depois, volta para uma cidade preparada para caminhar, trabalhar mais tempo, consumir e investir pensando em décadas a mais de vida.

Do outro lado, uma aposentada brasileira que contratou um plano de saúde nos anos 90. Hoje, seu contrato está no centro da disputa jurídica sobre o reajuste para a faixa etária acima dos 60 anos. A conta atuarial não fecha, as operadoras alertam para risco de quebra, os órgãos de defesa do consumidor denunciam aumentos abusivos. No limite, ela corre o risco de ser empurrada para fora do sistema privado justamente quando mais precisa dele.


Entre o retiro de US$ 20 mil e o cancelamento silencioso do plano, está a pergunta incômoda que evitamos formular:

Que tipo de país estamos construindo: um em que a longevidade é um luxo ou um em que a longevidade é infraestrutura social?

Hoje, sinceramente, estamos muito mais perto da primeira opção – ainda que para um grupo minúsculo – do que da segunda.

O dinheiro já entendeu a oportunidade. E nós?

Do ponto de vista econômico, longevidade deixou de ser assunto de nicho. O UBS, por exemplo, passou a tratar o tema como uma das grandes “oportunidades de transformações inovadoras”: fala em trilhões de dólares em novas terapias para doenças associadas à idade, em mercados gigantescos para medicamentos que reduzem riscos metabólicos, em cidades e serviços financeiros projetados para uma vida produtiva estendida.


Relatórios setoriais europeus mostram o mesmo movimento: fundos como Apollo Health Ventures e outros, focados em longevidade, organizando portfólios inteiros ao redor de empresas que atacam o envelhecimento em múltiplas frentes – diagnósticos multiômicos, terapias celulares, testes epigenéticos, plataformas de prevenção.


A lógica é simples: se vivemos mais tempo, tudo à nossa volta precisa ser redesenhado – da carteira de investimentos à moradia, do modelo de trabalho aos sistemas de saúde e de cuidado.


O que impressiona é o contraste com o debate brasileiro, ainda muito marcado pela gramática do “custo do idoso”:

  • custo previdenciário,

  • custo hospitalar,

  • custo de medicamentos,

  • custo do reajuste do plano.


Enquanto fundos de venture capital montam estratégias dedicadas à longevidade, nós continuamos presos à pergunta:

“quem paga a conta de envelhecer? – e quase nunca à pergunta mais importante:

“Como desenhamos um ecossistema em que viver mais gere valor social e econômico, em vez de ser percebido apenas como um peso?”

O nó regulatório: FDA, STF e o Brasil no espelho

Curiosamente, tanto lá fora quanto aqui, o grande gargalo não é só tecnológico nem financeiro – é regulatório.


Nos Estados Unidos, muitas biotechs de longevidade batem numa muralha conceitual: o envelhecimento não é reconhecido como doença pelas agências reguladoras. Sem esse reconhecimento, as empresas são obrigadas a solicitar aprovação para indicações específicas como Alzheimer, osteoartrite e doenças hepáticas, enquanto, na prática, miram processos biológicos que envolvem várias condições ao mesmo tempo. Isso se reflete com força nos relatórios de mercado e de consultorias que analisam esse ecossistema.


No Brasil, o que está em jogo é de outra natureza, mas igualmente estruturante:

  • Como interpretar contratos antigos de planos de saúde à luz do Estatuto da Pessoa Idosa?

  • Até onde vai a proteção ao idoso e onde começa a inviabilidade atuarial?


Reportagens especializadas mostram cálculos que apontam perdas bilionárias e risco para operadoras menores, caso certas interpretações prevaleçam. De outro lado, entidades como o Idec alertam para aumentos abusivos que transformam o reajuste em um mecanismo de expulsão.


Em ambos os casos – FDA e STF – estamos falando de algo parecido:

As regras que desenhamos para um mundo mais jovem estão colapsando diante de uma sociedade que envelhece rapidamente.

Sem uma atualização regulatória clara, ficamos num limbo perigoso: travamos inovação séria, estimulamos promessas milagrosas e mantemos o sistema financeiro e assistencial em permanente sobressalto.

Wellness como infraestrutura: o salto que o Brasil ainda precisa fazer

Talvez a frase mais poderosa nesse debate venha justamente de um dos relatórios do UBS: é hora de “reformular o bem-estar como infraestrutura”.


Significa tratar longevidade não como produto de nicho, mas como obra de base. Não estamos falando apenas de criar novas clínicas e apps, e sim de redesenhar:

  • as cidades – calçadas caminháveis, transporte acessível, moradias adaptadas, espaços de convivência intergeracionais;

  • os serviços de saúde – atenção primária forte, integração real entre SUS, saúde suplementar e soluções digitais, fluxos de cuidado pensados para décadas, não para episódios agudos;

  • os dados – prontuário eletrônico interoperável, uso responsável de inteligência artificial, modelos de pagamento que remunerem prevenção e não apenas procedimentos;

  • o trabalho – trajetórias profissionais mais longas, flexíveis e compatíveis com o corpo que envelhece;

  • as finanças – produtos de aposentadoria, crédito e investimento desenhados para quem viverá mais, com ciclos de consumo e renda diferentes.


Isso exige algo que não cabe em uma startup sozinha, nem em uma operadora isolada: coordenação público-privada, visão de longo prazo e coragem regulatória.


E exige também um reposicionamento cultural. Quando o ENEM coloca o envelhecimento na redação, guiado por diretrizes de um Ministério da Educação que olha para os dados demográficos do IBGE, está dizendo aos jovens: “planejar o futuro do Brasil é planejar como vocês vão envelhecer.” 

A pergunta é se empresas, governos e investidores estão ouvindo o mesmo recado

E agora, o que fazemos com tudo isso?

Se aceitarmos que o envelhecimento acelerado do Brasil é inevitável – e que o mundo já enxerga longevidade como uma das grandes economias do futuro –, restam basicamente três caminhos:

  1. Negar o problemaContinuar ajustando remendos em um sistema de saúde e previdência desenhado para outra demografia, judicializar tudo, empurrar as decisões difíceis para o próximo governo, o próximo conselho, a próxima geração.

  2. Transformar longevidade em luxoPermitir que uma minoria tenha acesso a clínicas de alta tecnologia, terapias de ponta e produtos sofisticados, enquanto a maioria envelhece em estruturas precárias, reativas e fragmentadas.

  3. Tratar longevidade como infraestrutura de paísColocar o tema na agenda de inovação, de política industrial, de planejamento urbano, de regulação inteligente. E construir, em cima do SUS e da saúde suplementar, novas camadas de prevenção, cuidado de longo prazo e propósito para a vida estendida.


A newsletter que você está lendo nasce exatamente nesse terceiro caminho: provocar quem decide, empreende e investe a olhar para a longevidade não como uma linha de custo, mas como um novo sistema operacional para a saúde, a economia e a sociedade brasileira.


No fundo, a pergunta que fica não é se longevidade é investível. O capital global já respondeu que sim.

A pergunta que importa para nós é outra:


O Brasil quer ser apenas um importador caro de soluções de longevidade – ou um protagonista na construção de uma infraestrutura para viver mais e melhor?

A resposta não virá de um único remédio, de um wearable ou de um julgamento no STF. Ela será escrita, aos poucos, nas calçadas que construímos, nas regulações que atualizamos, nos modelos de negócio que escolhemos financiar – e nas redações que uma geração inteira de jovens já começou a escrever sobre o próprio futuro.

FONTES

  • UBS – relatórios sobre longevidade, saúde e oportunidades de investimento.

  • CB Insights – The Longevity Tech Market Map e análises do ecossistema de longevity clinics e biotechs.

  • Statista / relatórios sobre Longevity: The Startup and Investment Arena for Extended Living Comes to Europe.

  • Inc. Magazine – artigo “Startups Are Trying to Help People Live Longer. Here’s What the Research Says”.

  • Futuro da Saúde – reportagem “Planos de saúde defendem reajuste por faixa etária acima dos 60 anos em contratos antigos”.

  • Agência Senado – matérias sobre envelhecimento populacional e dados demográficos do Brasil.

  • IBGE e Organização das Nações Unidas (ONU) – projeções de envelhecimento da população brasileira.

  • Propostas e diretrizes do ENEM 2024 – tema da redação “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”.


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